Na semana passada, havia duas leituras muito diferentes sobre a eleição presidencial brasileira. Nas pesquisas de opinião, Lula aparecia à frente ou empatado com Flávio Bolsonaro dentro da margem de erro. Nos mercados de previsão, o cenário era outro: Flávio era o favorito com folga, com cerca de 60% de probabilidade de chegar à Presidência, tanto na Polymarket quanto na Kalshi.
No domingo, 4 de outubro, o Brasil votou. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A disputa segue para o segundo turno, no dia 25 de outubro.
A eleição ainda não acabou, e o mercado que pergunta quem será o próximo presidente só se resolve no segundo turno. Mas o primeiro turno já entregou um dado que vale olhar com calma: quem leu melhor o eleitor brasileiro nas semanas anteriores à votação.
O que cada um dizia antes da votação
Pesquisas e mercados de previsão respondem a perguntas diferentes. A pesquisa pergunta em quem você pretende votar. O mercado de previsão pergunta o que vai acontecer, e quem responde coloca dinheiro na própria resposta. Mesmo assim, as duas leituras apontavam para direções opostas.
| Fonte | Última leitura antes do 1º turno | Quem estava na frente |
|---|---|---|
| Datafolha (3/out) | Lula 45% × Flávio 42% (válidos) | Lula |
| Quaest (2 e 3/out) | Lula 46% × Flávio 45% (válidos) | Lula |
| AtlasIntel (27/set a 2/out) | Lula 47% × Flávio 44,1% (válidos) | Lula |
| CNT/MDA (3/out) | Lula 47,8% × Flávio 42,1% (válidos) | Lula |
| Polymarket (30/set) | Flávio 60% × Lula 41% de chance de ser presidente | Flávio |
| Kalshi (30/set) | Flávio 61% × Lula 39% de chance de ser presidente | Flávio |
O favoritismo de Flávio nos mercados não surgiu na véspera. Em meados de setembro, ele já tinha passado Lula na Kalshi, com 55% contra 44%. No dia 21 de setembro, a Polymarket mostrava Flávio com 58,7%. No dia da eleição, antes do início da apuração, as duas plataformas giravam em torno de 64% para ele. Ao longo de quase um mês, o sinal foi consistente e na mesma direção.
Também não foi um mercado pequeno. O mercado da Polymarket sobre a eleição presidencial brasileira passou de US$ 165 milhões em volume negociado.
O que a urna mostrou
Com 100% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro teve 56,1 milhões de votos (47,03%) e Lula, 53,9 milhões (45,16%). A diferença foi de 2,2 milhões de votos, ou 1,9 ponto percentual.
Comparando com as últimas pesquisas, aparece um padrão claro: os institutos acertaram o tamanho do Lula e erraram o tamanho do Flávio.
| Instituto | Erro no Lula | Erro no Flávio |
|---|---|---|
| Datafolha | −0,2 ponto | −5,0 pontos |
| CNT/MDA | +2,6 pontos | −4,9 pontos |
| AtlasIntel | +1,8 ponto | −2,9 pontos |
| Quaest | +0,8 ponto | −2,0 pontos |
O Datafolha, o instituto mais conhecido do país, cravou o percentual de Lula praticamente no número, mas subestimou Flávio em cinco pontos e inverteu a ordem dos dois primeiros colocados. Quaest, AtlasIntel e CNT/MDA também colocavam Lula na frente. Entre os institutos que divulgaram números na reta final, a Palver foi uma das poucas exceções, com Flávio à frente.
Não é a primeira vez. No primeiro turno de 2022, a última pesquisa Datafolha dava Lula 50% e Jair Bolsonaro 36% dos votos válidos. O resultado foi Lula 48,4% e Bolsonaro 43,2%. O candidato da direita foi subestimado em cerca de sete pontos. Em 2026, o erro se repetiu na mesma direção.
Por que o mercado leu melhor
Não existe mágica. Existem diferenças de método que explicam por que, em eleições como essa, os mercados de previsão costumam chegar mais perto do resultado.
1. O mercado responde à pergunta certa. A pesquisa mede intenção de voto num momento específico. O mercado de previsão mede a expectativa sobre o resultado final. Quem negocia não está dizendo em quem vai votar. Está estimando o que vai acontecer, levando em conta tudo o que sabe, inclusive o histórico de erros das próprias pesquisas.
2. O mercado corrige vieses conhecidos. Em setembro, análises do mercado já apontavam que os traders esperavam Flávio acima do que o Datafolha mostrava, por dois ou três pontos, justamente por causa do erro de 2022. A pesquisa não pode ajustar o próprio número por um erro que ainda não aconteceu. O mercado pode, e foi isso que ele fez.
3. Errar custa dinheiro. Numa pesquisa, quem responde não perde nada se estiver errado. Num mercado de previsão, quem coloca dinheiro numa leitura errada perde o que colocou, e quem tem uma informação melhor ganha ao corrigir o preço. Esse incentivo empurra o número na direção da realidade.
4. O mercado se atualiza o tempo todo. Uma pesquisa é uma fotografia, divulgada dias depois de feita. O preço de um mercado muda a cada nova informação: um debate, uma pesquisa nova, uma notícia. No domingo, enquanto as urnas eram apuradas, a probabilidade de Flávio na Polymarket chegou a 83%.
5. O mercado agrega muita gente diferente. Um preço de mercado reúne a leitura de milhares de participantes, com informações e pontos de vista diferentes, e cada um pesa conforme a confiança que tem na própria leitura. É o que os economistas chamam de sabedoria das multidões, com um filtro de convicção.
Não é a primeira vez que isso acontece
O caso brasileiro de 2026 se soma a um histórico que vem sendo estudado há décadas. Um dos trabalhos mais citados sobre o tema analisou o Iowa Electronic Markets, um mercado de previsão acadêmico da Universidade de Iowa, em cinco eleições presidenciais americanas entre 1988 e 2004. Comparando os preços do mercado com quase mil pesquisas publicadas no mesmo período, os pesquisadores concluíram que o mercado ficou mais perto do resultado final em cerca de três quartos das comparações.
Na eleição americana de 2024, a história foi parecida com a brasileira. As médias de pesquisas mostravam um empate técnico entre Donald Trump e Kamala Harris até a véspera. A Polymarket dava Trump como favorito, com cerca de 60%. Trump venceu.
E em 2022, no Brasil, as plataformas internacionais apontavam Lula como favorito para vencer a eleição, como de fato aconteceu, enquanto as pesquisas subestimavam com folga o desempenho de Bolsonaro.
Onde o mercado também erra
Defender os mercados de previsão como fonte de informação séria exige ser honesto sobre os limites deles.
Probabilidade não é certeza. Quando o mercado dá 62% para Flávio, ele está dizendo que, em cenários parecidos, o outro lado vence em quase quatro de cada dez vezes. Se Lula vencer no dia 25, o mercado não terá necessariamente errado. Terá acontecido o resultado menos provável.
O mercado já errou feio. Em 2016, os mercados davam como mais provável a permanência do Reino Unido na União Europeia e a vitória de Hillary Clinton nos Estados Unidos. As duas leituras falharam, assim como as pesquisas.
Nem todo mercado é grande o suficiente. Mercados com pouco volume podem ser movidos por poucos participantes. No caso da eleição brasileira, com centenas de milhões de dólares negociados, esse risco é muito menor do que em mercados de nicho.
O ponto não é que o mercado acerta sempre. É que, quando ele tem volume, participantes diversos e uma pergunta clara, costuma ser uma das leituras mais precisas disponíveis sobre um evento incerto. E muitas vezes enxerga antes o que os indicadores tradicionais demoram a mostrar.
O teste final: 25 de outubro
O primeiro turno não resolve o mercado. A pergunta em negociação é quem será o próximo presidente, e ela só tem resposta no segundo turno. Durante a apuração de domingo, a Polymarket chegou a dar 83% de chance para Flávio. Pesquisas para o segundo turno vão começar a sair nos próximos dias.
Nas próximas três semanas, o Brasil vai assistir, em tempo real, a uma comparação que até pouco tempo só interessava a especialistas: pesquisas de um lado, mercados de previsão do outro. Seja qual for o resultado, essa eleição já colocou os mercados de previsão no mapa da informação política brasileira.
O PredictionsBR vai acompanhar essa comparação até o fim.
- Resultado oficial do 1º turno (dados do TSE): Urna Aberta
- Últimas pesquisas e erros por instituto: Metrópoles, Revista Fórum e Helder Moura
- Probabilidades e volume nos mercados de previsão: NEXT.io, The Rio Times e Kalshi News
- Estudo sobre o Iowa Electronic Markets: Berg, Nelson e Rietz, Prediction market accuracy in the long run, International Journal of Forecasting, 2008